Aedos, os antigos poetas

Por Jaa Torrano

Muitos séculos antes de se adaptar a escrita fenícia à língua grega e de se criar assim esse prodigioso instrumento de comunicação que é o alfabeto, os aedos gregos já compunham e sabiam de cor muitas e longas canções. Aedo em grego antigo significa “cantor”; os aedos eram os poetas que, antes da invenção do alfabeto, praticavam o culto da deusa Memória e das musas e recebiam dessas divindades o dom de compor canções ao som da lira.

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É importante compreender, logo de início, que a poesia para o grego antigo significava um dom concedido pelas Musas; uma graça dos deuses. Sendo fruto de inspiração divina, a poesia, portanto, era exterior ao poeta, visão bastante diferenciada da que temos hoje, cuja célula propulsora da criação seria o jorrar da subjetividade do próprio artista. Segundo Cícero, ninguém saberia ser poeta se não fosse inflamado pelos espíritos e se não houvesse um sopro inspirado comparável ao delírio.

Dessa forma, conceituava-se também o poeta como um mestre da verdade. Isto porque as Musas, que soprariam as palavras de sabedoria, seriam filhas da Memória, potência religiosa ligada à Verdade. Verdade para os gregos não significava o contrário de mentira, como é em nossa sociedade. Verdade (Alétheia) era o oposto do Esquecimento (Léthe). Alétheia dá brilho e esplendor. Léthe faz silêncio e obscuridade. A alta honra na sociedade arcaica era ser imortalizado pelas palavras do poeta. Seriam palavras incontestáveis, portanto, verdadeiras.

Alethéia

Alethéia

A “palavra cantada” tem o poder de engendra-se na memória coletiva do povo, sendo transmitida pelas gerações como uma fonte real e profunda de conhecimento do que foi, é e será.

O aedo seria aquele que antes de “cantar a verdade” clamaria pela presença das Musas, e uma vez entusiasmado (theos = deus, entusiasmo=com deus dentro), ele começaria a transmitir as mensagens divinas. Era uma espécie de possessão; uma espécie de revelação. Era o próprio deus que falava através do poeta. Neste momento, segundo Platão, o poeta era privado de todos os seus sentimentos, e a razão suprimida em absoluto. O ensinamento transferido criava um arcabouço riquíssimo de conhecimento durável, cujos assuntos variavam desde os feitos humanos até a origem do mundo e dos deuses.

Dentro dessa questão, pode-se dizer que o aedo, ao lado do arauto e do adivinho, foi um dos responsáveis pela transmissão da tradição, dos costumes e, em última análise, da formação social da Grécia Arcaica.

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Um aedo chamado Hesíodo, que viveu na Beócia, região norte da Grécia continental, transmitiu-nos importantes canções. Hesíodo e Homero estão nos umbrais da história grega, pois é a partir da época em que viveram que se divulgou mais intensamente o uso da escrita na Grécia. Mas foi como aedos (e não como escritores) que eles compuseram suas canções: inspirados pelas deusas-musas, guiados pela deusa Memória, e servindo-se de técnicas de composição oral que durante séculos foram transmitidas de geração a geração.

Uma das canções de Hesíodo conta-nos como o mundo surgiu a partir dos primeiros deuses, dos amores e das lutas entre os deuses. Os mestres-escolas da Grécia clássica chamaram essa canção de Hesíodo Teogonia, que significa em grego “nascimento de deus” ou “dos deuses”. Esse nome teve tanto sucesso que até hoje essa canção é chamada assim. Os mestres-escolas gregos utilizavam-na para ensinar a ler e escrever: eles faziam leves marcas de letras em uma tabuinha de cera mole e mandavam a criança reforçar as marcas, tornando as letras bem visíveis, e depois explicavam o sentido dos versos assim escritos. A Teogonia constituía, com os poemas de Homero, a cartilha na qual os gregos aprendiam a ler, a pensar, a entender o mundo e a reverenciar o poder dos deuses.

Teogônia, Hesíodo

Teogônia, Hesíodo

Posteriormente, com a popularização do alfabeto, essas canções foram escritas e os aedos desapareceram, e aos poucos deixou-se de cultuar a deusa Memória. Mas é daquela época remota que nos chegaram, entre outras canções, a Ilíada e a Odisséia, cujo autor os gregos acreditavam ter sido Homero, um aedo da rica região da Jônia, Ásia Menor, no século 8 a. C.

Hexâmetro Heroico, a métrica da poesia épica

O hexâmetro Dactílico, ou heróico, é uma forma de métrica poética ou esquema rítmico. É tradicionalmente associado à poesia épica, tanto grega quanto latina, como por exemplo a Ilíada e a Odisseia de Homero e a Eneida de Virgílio. É a mais antiga e importante forma usada na poesia épica da Grécia Antiga.

A origem do nome “dactílico” é a palavra grega “dactilus”, “dedo”, e faz alusão a um dedo: a primeira falange é longa e as duas seguintes breves, analogamente à sequência de sílabas longas e breves no verso.

Datílico: dedo com um sílaba longa, seguida por duas sílabas pequenas.

Datílico: dedo com um sílaba longa, seguida por duas sílabas pequenas.

O site Grécia Antiga descreve que “para os gregos e outros povos da Antiguidade, um poema não era bem o que hoje chamamos de “poesia”, e sim um arranjo de sílabas longas e breves que dava aos poemas, quando declamados, uma musicalidade característica. A poesia foi usada pelos gregos extensivamente na epopéia, na lírica, na tragédia e na comédia.” Há que se lembrar que estamos no meio de uma cultura oral e que não havia “obras escritas” como existem hoje. Não havia rimas, costume que se desenvolveu muito mais tarde com o advento do Cristianismo e da poesia religiosa (site Grécia Antiga).

Métrica

Métrica

A poesia grega usava metros distintos, combinações de sílabas longas (l) e breves (b). Estas formavam uma estrutura básica dos versos chamamos pés. Cada pé era constituído pela sucessão de longas e breves e comportava dois “tempos”, um mais elevado e um mais baixo. A sucessão padronizada de pés emprestava ao verso um ritmo característico, lento e solene, ou vivaz e agitado, e assim por diante.

Variações destes eram também comumente utilizadas. A substituição de um pé dáctilo por um pé espondeu, por exemplo, era bastante frequente. Os dois tipos mais antigos de metro são o hexâmetro e o iambo. Uma das mais antigas inscrições gregas conhecidas, a da taça de Nestor, tem três versos, sendo o primeiro um iambo e os dois outros, hexâmetros… Os poetas escolhiam os ritmos de seus versos segundo o efeito que desejavam produzir. Nas comédias, por exemplo, usava-se muito os versos iâmbicos, que se assemelhavam bastante à fala durante uma conversação comum. Na poesia épica, a mais antiga forma conservada de poesia grega, a preferência recaía sobre o hexâmetro dactílico, de efeito lento e solene. A poesia épica ou epopéia tem geralmente uma certa extensão e relata aventuras heróicas — míticas ou históricas — em estilo elevado.

Taça de Nestor e suas inscrições

Taça de Nestor e suas inscrições

O hexâmetro dactílico (ou “heróico”), constituía-se essencialmente de seis pés dactílicos ou seus equivalentes espondeus, cada um com um elemento bem marcado e outro mais fraco; o “tempo” bem marcado correspondia sempre a uma sílaba longa, e o “tempo” fraco a uma sílaba longa ou duas breves. Havia geralmente uma “pausa” ou cesura no meio do verso (terceiro pé), de modo a permitir a respiração do declamador.

Eis a estrutura métrica do primeiro verso da Ilíada de Homero, composto por volta de -750: Um dáctilo (dactilus, em grego “dedo”) é uma sequência de três sílabas poéticas, a primeira longa e as duas seguintes breves. Portanto, o verso hexâmetro dactílico ideal consiste de seis (do grego hexa) pés, sendo cada um dáctilo. Tipicamente, porém, o último pé do verso não é um dáctilo, mas sim um espondeu ou um troqueu, ou seja, a penúltima sílaba é sempre longa e a última silaba pode ser breve ou longa.

Ilíada

Ilíada

Na realidade, é difícil dispor as palavras nesta métrica, então poetas podem substituir os dáctilos por espondeus, que são pés com duas sílabas longas. Tradicionalmente o quinto pé em um verso é um dáctilo verdadeiro. Cerca de uma linha em vinte de Homero tem um espondeu no quinto pé. Esta linha é conhecida como espondaica. Uma linha de hexâmetro dactílico pode ser diagramada da seguinte maneira (Note que “¯” é uma sílaba longa, “u” é uma sílaba breve e “U” pode ser uma longa ou duas breves):

                                                                                   ¯ U | ¯ U | ¯ U | ¯ U | ¯ u u | ¯ ¯

A Questão Homérica

Por Renata C. de Souza

Teriam os heróis de Homero realmente existido? O melhor dos aqueus, o domador de cavalos, o de muitos ardis de fato participaram de uma guerra que assolou Troia no século XIII a.C.? É lícito para o historiador se debruçar sobre a Ilíada e a Odisseia para estudar essa época? Homero realmente existiu? Essas e outras questões foram (e algumas ainda são) frequentemente colocadas para aqueles que estudam as epopeias homéricas.

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Como analisar as obras homéricas?

Desde a Antiguidade as epopeias de Homero são objeto de estudo; Robert Aubreton, em seu livro Introdução a Homero (DIFEL/EDUSP, 1968) nos mostra várias escolas de análise e pensamento, as quais algumas, inclusive, divergiam entre si, como era
o caso das escolas de Alexandria e Pérgamo (AUBRETON, 1968: 17-19). Platão, mesmo crendo que os poetas deveriam ficar à parte do seu “Estado ideal”, reconhecia Homero como o “educador da Grécia”, e Estrabão, contradizendo o que Eratóstenes havia firmado, defende que os lugares relatados por esse aedo possuem uma descrição geográfica precisa (GABBA, 1986: 38-39).
Homero também foi objeto de estudo: a partir do século XVIII, a crítica filológica dedicava-se a especular a sua existência, a sua condição de cego, a sua origem regional (SERGENT, 2003: 390). E as descobertas arqueológicas dos séculos XIX e XX só vieram
a fomentar a “questão homérica”. Tudo começou quando Heinrich Schliemann (1822-1890), um comerciante alemão, embevecido pelos poemas homéricos, decidiu investir na descoberta da famosa região. Dirigiu-se à Turquia e começou as escavações, contudo sem a mesma perícia e cuidado dos arqueólogos profissionais. Cada artefato encontrado pertencia a um personagem da guerra para Schliemann: a máscara funerária de Agamêmnon, a taça de Nestor, as joias de Hécuba. A perfeição das descrições de Homero e a clareza com que estas se encaixavam naqueles objetos os quais estavam sendo descobertos eram espantosas: Schliemann tinha razão de ficar extasiado. Algumas décadas depois, arqueólogos recomeçaram as escavações no local e acabaram descobrindo onze “Troias”, sobrepostas umas às outras. Os especialistas classificam como sendo a Troia de Homero a de número VIIa, que teria existido entre 1300-1260 a.C. (CARLIER, 2008: 230-231). Entretanto, conforme os estudos das tabuinhas de Linear B – escrita que foi decifrada por Michel Ventris e John Chadwick – e as descobertas arqueológicas foram avançando, algumas contradições entre o poema e a cultura material começaram a surgir.

Fragmento encontrado de "Ilíada"

Fragmento encontrado de “Ilíada”

Isso acontece porque Homero compõe suas obras entre os séculos IX e VII a.C.4. Como observou Pierre Vidal-Naquet:

o fato de Homero ter desejado evocar a Grécia micênica não
significa que ele a tenha efetivamente descrito. Para começar está
faltando, entre outras coisas, a escrita dos escribas e toda a
sociedade que ela implica: sociedade dominada pelo palácio do rei
(VIDAL-NAQUET, 2002: 29).

O cruzamento de informações provindas da cultura material com as epopeias de Homero mostram que duas épocas distintas se imiscuem: a Palaciana (XVII-XII a.C.), que diz respeito à guerra de Troia, e a Políade Arcaica (VIII-VII a.C.), em que foram escritas
as obras homéricas. Além da questão da inumação e da incineração , que denotam essa constatação, também há a menção tanto ao bronze (utilizado na Época Palaciana, também conhecida como Idade do Bronze) quanto ao ferro (cuja utilização se disseminou na Época Políade) e a presença de reuniões em assembleias na agorá (algo caro a este período de pólis).
A questão é que “é impossível fazer coincidir uma epopeia com uma escavação” (VIDAL-NAQUET, 2002: 25). As escavações em Hissarlik não estão sendo feitas para comprovar a Ilíada ou a Odisseia; do mesmo modo, não é a função do historiador que se
debruça sobre as obras homéricas tentar provar que a guerra de Troia, ou o “rapto” Helena, ou as viagens de Odisseu de fato aconteceram. Não é nossa função provar que Páris, Heitor, Príamo, Aquiles, Ájax ou Agamêmnon existiram realmente. Emilio Gabba atentou para essa postura ao escrever que:

Em qualquer caso, e contemplando separadamente a investigação
sobre os poemas e a análise da realidade histórica dos feitos
descritos, o aproveitamento histórico da obra homérica será seguro
e maior sempre que apontar para o estudo de aspectos como
família, vida social e política, instituições e normas, princípios
éticos, comportamento religioso, cultura material, ou fatores
econômicos. Os símiles entre os poemas são, em suma,
particularmente reveladores
(GABBA, 1986: 45).

Desse modo, é muito mais profícuo nos debruçarmos sobre as obras homéricas a fim de ver o funcionamento da sociedade políade arcaica, do que tentar comprovar a existência factual de personagens e feitos heróicos. É adotando essa postura que pretendemos, em nosso estudo, compreender o código de conduta dessa sociedade guerreira.

A Apoteose de Homero, de Jean Auguste Dominique Ingres

A Apoteose de Homero, de Jean Auguste Dominique Ingres

Homero, através da representação de situações e personagens provindas do material mítico do qual ele dispõe , mostra ao seu público um modo de agir, pensar e sentir que dará à cultura grega uma unidade a qual fará com que os helenos se identifiquem como tais pelas práticas que compartilham. As obras homéricas são as primeiras da literatura ocidental a trazerem a questão da identidade/alteridade, tão cara a nós hoje em dia.

Porque estudar os heróis?

Justamente pelo fato da Ilíada e da Odisseia desempenharem esse papel paidêutico, é que a análise da construção dos heróis representados nelas constitui uma fonte importante para compreender os códigos de conduta que se pretendiam passar para os ouvintes dessas epopeias. Segundo Jean-Pierre Vernant:

Mas, para que a honra heroica permaneça viva no seio de uma
civilização, para que todo o sistema de valores permaneça marcado
pelo seu selo [o do herói], é preciso que a função poética, mais do
que objeto de divertimento, tenha conservado um papel de
educação e formação, que por ela e nela se transmita, se ensine, se
atualize na alma de cada um este conjunto de saberes, crenças,
atitudes, valores de que é feita uma cultura. (…) a epopeia
desempenha o papel de paideía, exaltando os heróis exemplares,
assim como os gêneros literários „puros‟ como o romance, a
autobiografia, o diário íntimo o fazem hoje
(VERNANT, 1978: 42).

Guerreiros Homéricos

Guerreiros Homéricos

O herói é um personagem fundamental na vida dos gregos; eles são exemplos a serem seguidos. São potências sobre-humanas a serem reverenciadas, visto que se ligam aos deuses seja por parentesco (como Aquiles, bisneto de Zeus) ou por afeição (como
Páris, protegido de Afrodite e Apolo). Karl Kerényi afirma que não podemos negar existência factual, historicidade, aos heróis, pois estes se:

(…) mostram, alguns mais e outros menos, entrelaçados com a
história, com os acontecimentos, não de um tempo primevo que
está fora do tempo, mas do tempo histórico, e que lhe toca as
fronteiras tão intimamente como se já fossem história
propriamente dita e não mitologia
(KERÉNYI, 1998: 17).

Para o público de Homero, os heróis existiram; afinal “sem a crença na realidade do seu objeto, o mito perderia sua razão de ser” (FINLEY, 1988: 20). Eles eram cultuados e algumas cidades prestavam homenagens a heróis específicos, ligados à sua fundação. Ele era como um mediador entre os homens e os deuses, do mesmo modo que o aedo, nesse sentido, visto que as Musas não revelavam seus conhecimentos para qualquer um senão um poeta inspirado. O culto a esses heróis é fundamental à sua imortalidade – visto que a verdadeira morte para eles era o esquecimento, léthe – e à manutenção desse vínculo com os deuses.

Os heróis são homens exemplares e estar ligado a eles implica numa areté (virtude) considerável; por isso muitos deles foram reivindicados como antepassados pelas famílias aristocráticas, às quais conferiam um passado glorioso (LÉVÈQUE, 1996: 175; GUAL, 2006: 170), como foi o caso, por exemplo, de Alexandre, O Grande. Ele estava bem servido de antepassados gloriosos, à medida que a família de seu pai, Felipe II, dizia ser descendente de Héracles e a de sua mãe, Olímpia, de Aquiles (PLUTARCO, II, 1).
Além disso, as epopeias homéricas vão ser utilizadas como um instrumento de paideía, de formação, educação helênica; segundo Jaeger, foi com os sofistas que essa palavra, que no séc. IV e durante o helenismo e o império haveria de se ampliar cada vez mais a sua importância e a amplitude do seu significado, pela primeira vez foi referida à mais alta areté humana e, a partir da „criação dos
meninos‟ – em cujo simples sentido a vemos em Ésquilo, pela primeira vez –, acaba por englobar o conjunto de todas as exigências ideais, físicas e espirituais, que formam a kalokagathia, no sentido de uma formação espiritual consciente (JAEGER, 2010: 335). Os heróis, ao serem rememorados, se constituem (ou não) em exemplos a serem seguidos.

Tomemos como exemplo o herói de nossa pesquisa, Páris: a partir da análise da sua personalidade, percebemos que são evidenciadas nele as seguintes características: sua beleza, sua habilidade musical, sua habilidade de sedução, o fato de ele ter causado a guerra, sua falta de firmeza e coragem e sua reluta em comparecer ao campo de batalha. Logo, faltam-lhe características de um herói guerreiro, características bélicas. Sendo a Ilíada um poema que versa sobre uma guerra, a presença de um personagem assim denota não um modo de conduta guerreira, mas um exemplo de como não agir em uma guerra.
A beleza, a habilidade musical, são valorizadas pelos kaloì kagathoí; na Ilíada, Aquiles dedilha sua lira e isso não faz dele um herói menor, assim como a kállos, a beleza, é um elemento importante no código de conduta expresso pelas obras homéricas e o qual serve de modelo a essa aristocracia políade. Entretanto, Páris não possui tanta areté (virtude) guerreira quanto Aquiles, Heitor, Menelau ou Odisseu, cujos epítetos mesmo já revelam sua conexão inextricável com o ambiente bélico.

Helena e Páris

Helena e Páris

O estudo dos heróis e de sua conduta também implica na análise da sociedade em que vivem; não podemos nos esquecer de que as pessoas, tomadas de forma singular (o que chamaríamos de indivíduo hoje), e sociedade não se constituem num par antitético, mas
complementar: as pessoas estão imiscuídas na sociedade, fazem parte dela e através de suas ações modificam-na. Norbert Elias chama atenção para o problema da análise da singularidade e da coletividade:

As pessoas vivenciam o „indivíduo‟ e a „sociedade‟ como coisas
distintas e frequentemente opostas – não porque possam realmente
ser observadas como entidades distintas e opostas, mas porque as
pessoas associam essas palavras a sentimentos e valores
emocionais diferentes e, muitas vezes, contrários (…). A lente da
atenção pode ser regulada num foco mais amplo ou mais restrito;
pode concentrar-se naquilo que distingue uma pessoa de todas as
demais como uma coisa única; ou naquilo que a vincula às outras,
em suas relações com elas e sua dependência delas; e por fim pode
enfocar as mudanças e estruturas específicas da rede de relações de
que ela faz parte
(ELIAS, 1994: 75-76).

Os heróis têm, sim, suas personalidades singulares; entretanto, estão ligados a uma sociedade, a qual tem um código de conduta estabelecido. Preza-se a coragem, a honra, a hospitalidade, a boa relação com os deuses, a prática esportiva. A análise de Páris, por exemplo, é mais profícua se a fizermos tendo em consideração as normas das quais ele desfruta dentro da sociedade em que está inserido. Páris é um heleno; embora esteja na parte asiática da Hélade14, ele não deixa de compartilhar da cultura grega. Gregos e troianos não pertencem a culturas diferentes, tampouco a nações diferentes: como observou Vernant:

Aquiles é inimigo de Heitor, detesta-o, não porque ele é troiano
(não há nação, não há chauvinismo, gregos e troianos se
entendem muito bem, falam a mesma língua, têm as mesmas
reações, e os troianos são descritos pelo poeta com a mesma
simpatia), mas porque Heitor matou aquele que era para ele como
um irmão, Pátroclo
(VERNANT, 2009: 91)

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Assim, à medida que ele transgride normas, ele constitui-se em um exemplo de como não se deve agir. Páris, ao retirar Helena de Menelau quando estava alojado em seu palácio, cometeu uma infração: desrespeitou a hospitalidade (xénia), prática cara aos
helenos. Essa transgressão foi uma das engrenagens da áte (perdição) de Páris: visto que a áte se dá de três momentos (princípio, estado/ato e consequência), o “rapto” de Helena é o “estado/ato” que teve como princípio a escolha de Afrodite e a guerra como
consequência (MALTA, 2006: 78). Do mesmo modo, quando recua ante a fúria de Menelau antes do episódio do combate singular entre eles (HOMERO. Ilíada III, vv. 15-37), está indo de encontro ao ideal de guerreiro intrépido no combate. O herói é o modelo do kaloì kagathoí, como vimos anteriormente; entretanto, como Marcel Detienne mostra, os heróis também foram construídos com base em um modelo.

Homero compôs suas obras em um contexto histórico; desse modo, ele lança mão do que está disponível para sua época, como observa Pierre Carlier:
O público que escutava A Ilíada e A Odisseia sabia que certos
costumes da „idade dos heróis‟ diferiam dos hábitos da sua época.
Também os aedos se acautelavam para não cometerem um
anacronismo flagrante. Contudo, não podiam abstrair-se
totalmente da civilização material que lhes era familiar e tinham de
referi-la para serem compreendidos
(CARLIER, 2008: 239).

Em virtude do apresentado, pudemos compreender que a análise da Ilíada e da Odisseia vai além da simples tentativa de comprovação de feitos heróicos, da existência de uma guerra ou da existência do próprio aedo: é mais profícuo buscar a compreensão das estruturas políticas, econômicas, sociais, culturais, religiosas e institucionais da época em que os poemas foram compostos.

Além disso, a rememoração dos heróis a partir da epopeia – a qual representa suas façanhas, personalidades e modos de agir – é importante para a configuração de todo um código de conduta heleno, corroborando a ideia de uma função paidêutica das obras
homéricas. No tocante à historicidade desses heróis, ela está ligada, por um lado, ao papel que suas personalidades desempenham na vida do público de Homero – que os rememoram e os cultuam – e, por outro, à ligação inextricável entre o aedo que compôs as
obras e o seu contexto histórico, fazendo com que a trama e os heróis sejam constituídos com base na própria sociedade na qual ele vive e conhece.

Literatura Fundamental: Ilíada

Primeiro programa da série “Literatura Fundamental”, que trata de um dos textos mais antigos da literatura ocidental: A Ilíada, de Homero, que narra os últimos dias da Guerra de Troia – ou Ílion. Quem fala sobe o livro é o professor André Malta, pesquisador e especialista em Homero e autor de diversos livros e trabalhos sobre a Ilíada, a Odisseia e seus personagens.

 

Obra #1: Ilíada

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Homero

Ilíada é constituída por 15.693 versos em hexâmetro datílico, que é a forma tradicional da poesia épica grega. Foi composta por uma mistura de dialetos, resultando numa língua literária artificial, que nunca foi de fato falada na Grécia.

Considera-se que tenha a sua origem na tradição oral desde tempos micênicos ou seja, teria originalmente sido cantada pelos aedos, e só muito mais tarde os versos foram compilados numa versão escrita, no século VI a.C. em Atenas. O poema foi então posteriormente dividido em 24 cantos, divisão que persiste até hoje. A divisão, com cada canto correspondendo a uma letra do alfabeto grego, é atribuída aos estudiosos da biblioteca de Alexandria, mas pode ser anterior.

Tornou-se, juntamente com a Odisseia (atribuída ao mesmo autor), modelo da poesia épica, seguido pelos autores clássicos, como Virgílio, na sua Eneida, dentre outros. No entanto a Ilíada influenciou fortemente a cultura clássica de maneira geral, abrangendo campos não só da literatura, como a poesia lírica e a tragédia (influenciando a linguagem e os temas desses),mas também a historiografia (não só pela temática bélica, mas a também a estrutura das narrativas historiográficas), a filosofia etc., sendo estudada e discutida na Grécia Antiga (onde era parte da educação básica) e, posteriormente, no Império Romano.

É considerada como a “obra fundadora” da literatura ocidental e uma das mais importantes da literatura mundial.

Ilíada passa-se durante o nono ano da guerra de Troia e trata da ira de Aquiles. A ira é causada por uma disputa entre Aquiles e Agamenon, comandante dos exércitos gregos em Tróia, e consumada com a morte do herói troiano Heitor (ou Héctor), terminando com seu funeral. Embora Homero se refira a uma grande diversidade de mitos e acontecimentos prévios, que eram de amplo conhecimento dos gregos e portanto da sua plateia, a história da guerra de Troia não é contada na íntegra. Dessa forma, o conhecimento prévio da mitologia grega acerca da guerra é relevante para a compreensão da obra.

Os gregos antigos acreditavam que a Guerra de Troia era um fato histórico, ocorrido por volta de 1200 a.C. no período micênico, mas alguns estudiosos atuais têm dúvidas sobre se ela de fato ocorreu. Até à descoberta do sítio arqueológico na Turquia, na Anatólia, acreditava-se que Troia era uma cidade mitológica.

A guerra de Tróia

A Guerra de Troia deu-se quando os aqueus atacaram a cidade de Troia, buscando vingar o rapto de Helena, esposa do rei de Esparta,Menelau, irmão de Agamemnon1 . Os aqueus eram os povos que hoje conhecemos como gregos, que compartilhavam uma cultura e língua comuns, mas na época se definiam como vários reinos, e não como um povo uno.

O Cavalo de Tróia, de Giovanni Domenico Tiepolo

O Cavalo de Troia, de Giovanni Domenico Tiepolo

A lenda conta que a deusa (ninfa) do mar Tétis era desejada como esposa por Zeus e seu irmão Posidão. Porém Prometeu profetizou que o filho da deusa seria maior que seu pai. Então os deuses resolveram dá-la como esposa a Peleu, um mortal já idoso, intencionando enfraquecer o filho, que seria apenas um humano. O filho de ambos é o guerreiro Aquiles. Sua mãe, visando fortalecer sua natureza mortal, mergulhou-o, ainda bebê, nas águas do mitológico rio Estige. As águas tornaram o herói invulnerável, exceto no calcanhar, por onde a mãe o segurou para o mergulhar no rio (daí a famosa expressão calcanhar de Aquiles, significando ponto vulnerável). Aquiles tornou-se o mais poderoso dos guerreiros, porém, ainda era mortal. Mais tarde, sua mãe profetiza que ele poderá escolher entre dois destinos: lutar em Troia e alcançar a glória eterna, mas morrer jovem, ou permanecer em sua terra natal e ter uma longa vida, mas sendo logo esquecido.

Para o casamento de Peleu e Tétis todos os deuses foram convidados, menos Éris, ou Discórdia. Ofendida, a deusa compareceu invisível e deixou à mesa um pomo de ouro com a inscrição “à mais bela”. As deusas HeraAtena e Afrodite disputaram o pomo e o título de mais bela. Zeus então ordenou que o príncipe troiano Páris, à época sendo criado como um pastor ali perto, resolvesse a disputa. Para ganhar o título de “mais bela”, Atena ofereceu a Páris poder na batalha, Hera o poder e Afrodite o amor da mulher mais bela do mundo. Páris deu o pomo a Afrodite, ganhando assim sua proteção, porém atraindo o ódio das outras duas deusas contra si e contra Troia.

Helena e Páris, por Jacques-Louis David

Helena e Páris, por Jacques-Louis David

A mulher mais bela do mundo era Helena, filha de Zeus e Leda. Leda era casada com Tíndaro, rei de Esparta. Helena possuía diversos pretendentes, que incluíam muitos dos maiores heróis da Grécia, e o seu pai adotivo, Tíndaro, hesitava tomar uma decisão em favor de um deles temendo enfurecer os outros. Finalmente um dos pretendentes, Odisseu (cujo nome latino era Ulisses), rei de Ítaca, resolveu o impasse propondo que todos os pretendentes jurassem proteger Helena e sua escolha, qualquer que fosse. Helena então se casou com Menelau, que se tornou o rei de Esparta.

Quando Páris foi a Esparta em missão diplomática, se enamorou de Helena e ambos fugiram para Troia, enfurecendo Menelau. Este apelou aos antigos pretendentes de Helena, lembrando o juramento que haviam feito. Agamémnom então assumiu o comando de um exército de mil barcos e atravessou o mar Egeu para atacar Troia. As naus gregas desembarcaram na praia próxima a Troia e iniciaram um cerco que duraria 10 anos, custando a vida de muitos heróis, de ambos os lados. Finalmente, seguindo um estratagema proposto por Odisseu, o famoso Cavalo de Troia, os gregos conseguiram invadir a cidade governada por Príamo e terminar a guerra.

Outros temas abordados na Obra

Embora a Ilíada narre uma série de acontecimentos da guerra de Troia e se refira a uma série de outros, seu tema principal é o ciclo da ira de Aquiles, da sua causa ao seu arrefecimento. Isto fica claro logo na primeira linha do poema. A palavra grega mēnin, ira, é a primeira do poema, cuja famosa primeira linha é “Menin aeide, Thea, Peleiadeo Aquileos“. Em português seria “A ira canta, Deusa, de Peleio Aquiles” ou, adaptando, “Canta, Deusa, a ira do filho de Peleu, Aquiles”. Através da consumação dessa ira, é tratada a humanização do herói e semideus Aquiles, sempre conflitado por sua dupla natureza, filho de deusa e homem, portanto mortal.

A questão da escolha entre valores materiais, como a segurança e a vida longa, e valores morais, mais elevados, como a glória e o reconhecimento eterno, é tratada na escolha com que Aquiles se defronta: lutar, morrer jovem e ser lembrado para sempre, ou permanecer seguro e ser esquecido.

A soberba de Aquiles contrasta grandemente com a sobriedade de Heitor, também grande herói, que não busca a glória como Aquiles, mas luta pela segurança de sua família e de sua cidade, e a preservação de suas raízes troianas.

A guerra e suas consequências também é tema central na Ilíada, sendo ricamente retratada.

A condição humana é magistralmente trabalhada por Homero, mostrando os dilemas mortais, as interferências de instâncias superiores e suas consequências, personificadas nos deuses que tomam partido.

Amizade, honra e muitos outros temas abstratos também fazem parte da obra, compondo um belo painel da alma humana, o que é, sem dúvida, uma das qualidades que têm determinado a longevidade da narrativa homérica na cultura universal.

Fonte: Wikipédia